segunda-feira, 12 outubro , 2026

O que fica de um professor

FOTO UniSul Divulgação Notisul

(*) Lester Marcantonio Camargo

Há alguns dias, recebi uma mensagem de um ex-aluno. Ele dizia que, anos atrás, durante as aulas de Teoria Geral do Processo, teve a certeza de que queria ser professor. E se tornou. Ao recordar aquele tempo, escreveu para agradecer.

Confesso: poucas coisas têm a força silenciosa de uma mensagem assim.

Quem vive a docência por muito tempo aprende que o resultado do nosso trabalho quase nunca é imediato. Não é como erguer um prédio, concluir um processo ou fechar um contrato. O professor trabalha no invisível. Trabalha na formação de estruturas internas — pensamento, método, postura, rigor.

E raramente sabe ou tem certeza acerca do que floresceu.

Ao longo de mais de vinte e cinco anos em sala de aula, lecionei disciplinas técnicas, densas, às vezes áridas. Teoria Geral do Processo, Processo Civil em suas múltiplas fases, Estágio supervisionado, e Contratos. Sempre acreditei que o Direito precisa ser ensinado com seriedade intelectual, mas também com honestidade humana. O aluno não precisa apenas aprender normas; precisa aprender a pensar e ter senso crítico.

Longe de ser o dono da verdade, imagino que talvez seja esse o verdadeiro ofício do professor: ensinar a pensar com responsabilidade.

A vida profissional me levou por diferentes caminhos — a advocacia, a gestão acadêmica, funções administrativas, desafios institucionais — experiências que enriqueceram minha trajetória e ampliaram minha compreensão do Direito e das organizações. Contudo, sem qualquer hesitação e como já me manifestei em outras diversas ocasiões, afirmo: dentre todas as funções que exerci, a docência é, de longe, a que mais me trouxe reconhecimento genuíno e satisfação pessoal. É na sala de aula que encontro sentido mais profundo no que faço. É ali que o trabalho deixa de ser apenas técnico e se torna humano.

A sala de aula sempre foi o ponto de origem. É ali que a teoria encontra a inquietação de quem está começando. É ali que o Direito deixa de ser um código e passa a ser uma forma de compreender o mundo.

E, com o tempo, entendemos algo essencial: o professor não forma cópias. Ele provoca despertares.

Não sabemos qual frase ficará. Não sabemos qual aula será lembrada. Não sabemos em qual momento um aluno decide o rumo da própria trajetória. Muitas vezes, aquilo que para nós foi apenas mais uma aula, para alguém trouxe um impacto, deixou marcas.

A docência é um exercício permanente de humildade. Porque o verdadeiro legado nunca é nosso. Ele se realiza no outro.

Quando um ex-aluno se torna advogado ético, pesquisador comprometido ou professor dedicado, ele não está reproduzindo quem fomos. Está construindo a própria identidade. E isso é o que realmente importa.

Ensinar é, no fundo, um ato de esperança. E talvez hoje isso seja ainda mais necessário. Vivemos um tempo em que muitos perderam a confiança nas instituições, inclusive no próprio Poder Judiciário. Decisões das altas cortes, especialmente do Supremo Tribunal Federal, frequentemente ocupam o centro do debate público e provocam inquietações legítimas sobre segurança jurídica, previsibilidade e limites institucionais. O ambiente de polarização e de tensão institucional gera descrédito e ceticismo.

Justamente por isso, ensinar Direito torna-se ainda mais relevante. Formar juristas críticos, equilibrados, comprometidos com a Constituição e com a técnica é uma forma concreta de fortalecer a própria democracia. A crítica institucional é legítima — e necessária —, mas ela deve ser acompanhada de responsabilidade, estudo e compromisso com o aprimoramento das instituições, não com sua erosão.

Ensinar, portanto, é acreditar que as próximas gerações podem exercer o Direito com mais serenidade, mais técnica e mais compromisso institucional do que aquele que hoje observamos em muitos debates públicos.

Quando um ex-aluno escreve dizendo que se inspirou, o que sentimos não é orgulho. É gratidão. Gratidão por ter participado de um trecho da caminhada de alguém.

E talvez seja isso que fique de um professor: não os títulos, não as funções, não os cargos — mas as marcas discretas que ajudam outros a encontrarem o próprio caminho.

Se alguma aula despertou vocações, então a missão fez sentido.

E seguimos.

(*) Lester Marcantonio Camargo é advogado e professor do curso de Direito da UniSul

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